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Lazer em foco na América Latina

Durante o mês de setembro aconteceu o VIII Encuentro Latinoamericano de Recreación y Ocio, que teve como tema central Políticas y Postdesarrollo: um Desafio de Presente. O evento, sob a coordenação geral de Esperanza Osorio Correa, doutora em Conhecimento e Cultura na América Latina, contou com a participação de onze países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, Uruguai e Venezuela. Numa construção coletiva, organizada por “nodos” de cada país, que definiram grupos e agendas, constituiu-se um trabalho em rede. Com todas as diversidades, almejou-se conhecer potencialidades, desafios sociais e culturais, experiências, ações de formação e investigação em relação ao lazer, buscando campos de possibilidades latino-americanas e construção de ações conjuntas de fortalecimento.

Pautada em duas agendas, a acadêmica e a social, que se articularam o tempo inteiro, cumprindo a proposta de se realizar um trabalho harmonioso que contemplasse conceitos e práticas de lazer, bem como modos como as pessoas se divertem nesses países, a programação do evento foi organizada em cinco espaços (Figura 1) e contou com diferentes ações que relacionaram lazer e cultura; valorizaram produções, vivências e diálogos sobre temas caros e necessários aos diferentes países participantes, muitos em situação econômica, social, política e sanitária vulneráveis, acentuadas pelos efeitos da pandemia, considerando que a América Latina possui alto índice de mortalidade devido ao adoecimento pela ação do novo coronavírus, em comparação com outros locais do mundo  (COVID-19) (INFORME ESPECIAL, 2021).

Figura 1: Metodologia Geral: Espaços

Fonte: Metodologia de los espacios (2021)

Espaços e saberes foram construídos a partir de perguntas problematizadoras, que geraram respostas, novas perguntas e diálogos, como nos painéis. Práticas e saberes expressivos nos territórios, como os referentes aos acampamentos recreativos, que possuem relevância no processo de educação para o tempo livre, com abordagens ético-políticas e de valores democráticos, foram compartilhados nas experiências mobilizadoras. Encontros culturais mediados por poesia, música, dança, visita turística guiada e cantos aconteceram nas sextas-feiras de festa e promoveram sociabilidades. Jogos tradicionais e populares foram praticados nos domingos de jogos. Produções sobre o lazer também foram mostradas e conhecidas nos dias de estreia.

Tivemos a oportunidade de durante a divulgação do evento, antes de sua realização, produzir materiais e conhecer normativas e leis de alguns países sobre o direito ao lazer, com base em suas políticas públicas; conhecer frases que traziam valores, crenças, noções negativas sobre o lazer nas diferentes culturas e brincar de reinventá-las; bem como desfrutar de pequenas pílulas, vídeos, sobre o lazer no cotidiano de pessoas comuns desses países.

Temas contemplados nos diversos espaços revelaram questões do nosso tempo, resultado de processos históricos, mas também fruto de condições atuais. O lazer foi tratado em conexão com questões sociais, políticas e étnicas; foi associado a desafios sociais e a ações comunitárias. Tratou-se de temas como experiência de recreação com mulheres privadas de liberdade; gestão participativa do ócio; recreação como dispositivo flexível para abordagem e intervenção da realidade; turismo e recreação inclusivos. Povos originários foram privilegiados mediante o trato dos seus jogos, dando destaque a uma parcela da população muitas vezes não contemplada em nossas ações; vínculos entre lazer e comunidade, muitas vezes invisibilizados, ganharam centralidade. Questões como desenvolvimento humano, diversidade, gênero e condições de vulnerabilidade foram abordadas. Também houve articulação entre o contexto vivido e o lazer, sendo privilegiados temas como a formação de recreadores na pandemia; espaços públicos, jogo e pandemia; vivências de lazer na pandemia; práticas recreativas na natureza; áreas verdes e pós pandemia.

A experiência do evento foi muito rica porque contou com diferentes organizações e instituições que promovem, realizam, gerenciam, formam profissionais e investigam o lazer, como unidade de animação sociocultural, instituto, coletivo de recreadores, cooperativa de trabalho, rede, instituto universitário e universidade. Para o Programa de Pós-Graduação em Estudos do Lazer, da Universidade Federal de Minas Gerais, responsável pela organização e realização do II Colóquio Interdisciplinar de Estudos do Lazer, parte da programação do Encuentro, foi uma oportunidade única para ampliar ações junto ao grupo latino-americano, fortalecendo parcerias e contribuições.

Foi uma jornada de formação e aprendizagem, de ricas experiências, mesmo estando todos os participantes em atividade remota/online e acessando o conteúdo com outras, novas sensibilidades. Alguns desafios ficam, como apontado na sessão de encerramento do evento: que respostas vamos dar para os problemas atuais elucidados? O lazer faz parte da vida, como então buscar conjuntamente mobilização, discussão, normativas, soluções? Quais os desafios a partir desse encontro latino-americano ou o quanto nos falta para um diálogo intercultural?

Gostaria de terminar este texto ressaltando que durante a pandemia ainda em curso, com um novo normal se estabelecendo para uma parte da população mundial que não mais convive com o confinamento, mas com a retomada das atividades, embora com normas e protocolos de higienização, várias reportagens têm o lazer como centralidade. Uma delas, a qual destaco, nomeada “Ricos miram lazer pós-Covid, e pobres, comida, aponta FGV” (CUCOLO, 2021), trata sobre expectativas de consumo no Brasil pós pandemia. Segundo mostra a pesquisa da Fundação Getúlio Vargas em foco, 70% das pessoas com renda acima de R$ 9.600 pretendem gastar mais, após a vacinação, com serviços como viagens, transporte, restaurantes, cinema e atividades sociais. Pretensão essa que diminui proporcionalmente entre os quatro grupos analisados, conforme também reduz a renda, ficando o inferior, que ganha até R$2.100,00, também com menor intenção desse comportamento (12,5%). Para este grupo, a expectativa de aumento é apenas para o serviço alimento, uma vez que foi reduzido devido também às consequências da pandemia.

Na década de 1980, a música Comida, do álbum “Jesus não tem dentes no país dos banguelas” (1987), dos Titãs, já nos instigava a responder ou a realizar perguntas como, “você tem sede de que? Você tem fome de que?”, contribuindo para conscientização e reivindicação do usufruto de outros direitos sociais elementares, que estariam garantidos na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, para além da alimentação.

Trago essas duas cenas porque talvez um dos grandes desafios desse coletivo de países, muitos localizados nos grupos inferiores de distribuição de renda e com impactos sociais e econômicos significativos, seja trabalhar conjuntamente, inclusive com povos e comunidades, para que tenhamos para além da expectativa por comida, ou por sobrevivência mínima, não só o desejo de consumo do lazer, mas de valorização de seus saberes e práticas em políticas públicas que, a cada dia, possam privilegiar mais essa pauta.

Referências

CUCOLO, Eduardo. Ricos miram lazer pós-Covid, e pobres, comida, aponta FGV. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 jul. 2021. Mercado. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/07/ricos-miram-lazer-pos-covid-e-pobres-comida-aponta-fgv.shtml.

COMUNICACIONES VIII Encuentro Latam Ocio Y Recreacion. 2021.

INFORME ESPECIAL COVID 19. La paradoja de la recuperación en América Latina y el Caribe. Crecimiento con persistentes problemas estructurales: desigualdad, pobreza, poca inversión y baja productividad. Nações Unidas/ CEPAL, 8 jul. 2021. Disponível em: https://www.cepal.org/sites/default/files/publication/files/47043/S2100379_es.pdf.

METODOLOGIA de los espacios. 2021.

PROGRAMACIÓN VIII Encuentro Latam Ocio Y Recreacion. 2021.

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